30/01

Dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar

A comunidade de pescadores e os moradores de Arembepe se reúnem na alvorada e na manhã do dia 2 para festejar a rainha do mar com oferendas, danças, canticos, feijoadas e muito banho de mar

Oxum era rainha e na mão direita tinha o espelho onde vivia a se mirar.

Quanto nome tem a rainha do mar? Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá.

O dia amanheceu azul, rosa, laranja, solar. Pensei com os botões: Ela deve estar feliz. Amou muito ontem. Pulei da cama, vesti o maio, a camiseta branca, o shorts da mesma cor. Calcei a Birkenstoke de todos os dias, desci as escadas pé ante pé e fui para a praia. Ninguém nas areias do Piruí, naquela hora. Fui.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

O que ela gosta? O que ela adora?

Com o mar rugindo nos meus ouvidos, fui sentindo a areia entre os dedos e pensando no meu pedido. Estava precisada. Dessa vez não poderia apenas agradecer. Lembrei da emoção da última lavagem do Bonfim e tive esperança. Era a primeira vez que pedia. Tinha crédito. Tinha fé. E o pedido era singelo. Não queria dinheiro, poder, nem emprego. Queria de volta aquilo que havia perdido. Que Ela havia tomado de mim em um momento de distração.

Perfume, flor, espelho e pente. Toda sorte de presente para ela se enfeitar. Como se saúda a Rainha do Mar?

Segui meu caminho. Perto da vila dos pescadores cruzei com as primeiras pessoas. Todas quietas e concentradas em seus pensamentos. Alguns com presentes, outros sem nada, só com o desejo. Só para pedir. Só para agradecer. Não sou militante, mas acho uma barbaridade sujar o mar com tranqueiras. Não ofereceria nenhum mimo, nenhum presente. Seria um papo reto. De mulher para mulher. Queria o que era meu de volta. Simples assim. Não tinha feito nada de errado. Por que a privação?

Alodê, Odofiaba, Minha-mãe, Mãe-d`água, Odoyá!

Qual é seu dia, Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro, quando na beira da praia eu vou me abençoar.

O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita, se você chorar.

 A praia da vila de Arembepe ficava mais cheia a cada lambida de onda. Comecei a encontrar amigos, conhecidos e muitos políticos. No empurra-empurra natural dessas festas, tropecei e cai dentro da água tipo boba.

– Pronto, Minha Mãe, já me molhei. Já me melequei. Por favor, me ouve. Me ajuda. Como eu faço para ter de volta o que era meu e por distração perdi?

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia cantar.

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Ninguém reparou na minha queda. Dois metros depois, já dentro do mar, crianças brincavam de molhar o próximo. Riam, riam, riam. Estavam em festa com Oxum. A festa Dela, vale dizer, é uma grande farra. Com exceção de algumas fiéis, de olhar triste e distante e coração apertado, a maioria ali estava para celebrar. A vida, o mar, o amor. Ah, o amor.

O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita se você chorar.

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia a cantar.

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Amor, não é preciso fazer pesquisa, é o que mais se pede à rainha do mar. Ela é mãe. Ela é generosa. Ela é amorosa. Se ficar comovida com a história de amor, acredite, vai ajudar. Gosta de atender aos pedidos masculinos em primeiro lugar. Das mulheres, com quem disputa a atenção masculina, exige mais afinco e devoção. Afinal, é sereia, dona de exclusivos feitiços.

Andei viajando em meus pensamentos e demorei a chegar no lugar combinado. A multidão cresceu. Fiquei com um medo danado de me perder. De perder a minha companhia. De perder o meu desejo. De longe, fui escaneando a escada. Procurando, procurando, procurando. Achei. Neste momento, fogos espoucaram em festa. Mais um barco saia com oferendas. Mais um pedido seria entregue. Senti um calor no coração, uma ternura profunda. Sorri meu melhor sorriso. Será que ela já estava realizando o meu pedido?

 Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar

Em Arembepe, diferentemente do Rio Vermelho, em Salvador, a rainha não tem casinha, não tem estátua, nem santuário. Ela está no mar, casa dela. É onipresente. Onipotente. Simplesmente é. Para falar com ela, basta mergulhar. Fui. 

— Então, rainha? Você vai me ajudar? Para cá eu vim por causa do mar e do amor. Aqui quero ficar mas sem mar e sem amor não dá.

Ao voltar da água, dei de cara com mestre Lua, sorrindo seu sorriso mais luminoso. Dei bom dia. Ele sorriu outra vez, como que dizendo “não tenha medo. Tudo vai dar certo.”

É difícil explicar o que foi acontecendo. É difícil escrever e descrever. O céu ainda mais azul e o sol pintava o mar de várias cores. Subi na pedra do arrecife para acompanhar o barco que levava as oferendas para o lugar certo. Um grupo de mulheres barrigudinhas atirava mais flores carregadas de pedidos. Amor, senhora. Amor. 

Olhei para a praça das Amendoeiras, procurando. Achei. Fiquei feliz. Sorri, novamente, meu melhor sorriso. Estou aqui. Me espere. Quando voltei meu olhar para a arrebentação, quatro mulheres vestidas de Yemanjá chegaram. Parei para ver e ouvir. A mais velha puxava a cantoria. As mais novas acompanhavam. Um rapaz vestido de azul fazia a voz masculina nas cantigas em homenagens a Ela. Lindas, simples, pueris. Fiquei lá, enfeitiçada, ouvindo, ouvindo. Depois de vários cânticos, entendi. Era um batismo. Uma moça vestida de branco foi coberta por um manto e abençoada. Todo o grupo abraçou a garota, aquele abraço cruzando os ombros, para recebê-la na irmandade. Meia hora depois do início do ritual, ela fazia parte do grupo. Crianças terminaram por acolhê-la.

Cantamos. Dançamos. Sentimos. Porque a música é coisa de Deus.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

Meu peito, enfim, estava aberto. Sentia uma vontade louca de abraçar e beijar as pessoas queridas. Não era álcool na cabeça, não. Era apenas amor. Era felicidade. Ela havia atendido o meu pedido. Havia me devolvido o sentimento. Precisava festejar e agradecer.