02/09

O parque da fonte do Cacimbão resgatou a dignidade dos moradores de Arembepe

Como a luta pela preservação de uma fonte natural utilizada desde o século XVII resgatou o sentimento de pertencimento dos nativos de Arembepe, na Bahia

 

A 30 quilômetros de Salvador, Bahia, então a primeira capital do Brasil, foi fundada pelos jesuítas em 1558 a Aldeia do Espírito Santo, habitada por índios de várias aldeias tupinambás. Era uma das quatro primeiras povoações criadas pela Companhia de Jesus no Brasil. Em 1792, Domingos Alves Branco, ex-capitão do regimento de Infantaria de Extremoz e escriturário, visitou a aldeia em missão e produziu a primeira planta iconográfica da Vila de Abrantes, antiga Aldeia do Espírito Santo.

Em sua longa narrativa, Branco descreve que havia no trajeto uma estrada que levava a uma tal de Arembebe. No meio desse caminho, estava o motivo dessa nossa história. A fonte do Cacimbão, um poço de água limpa e abundante, descoberta pelos tupinambás e registrada pelos jesuítas. Uma fonte, então, escondida no meio da finada Mata Atlântica, que nestes cinco séculos já deu de beber a índios, padres, portugueses, escravos, lavadeiras, pescadores e, claro, a toda a comunidade de Arembepe, uma das sete praias do município de Camaçari.

No dia 14 de agosto de 2021, a mesma comunidade que cresceu fazendo fila, com as latas e panelas na cabeça, para colher a água para beber, vender e lavar roupa, acordou cedo para celebrar, rezar, dançar e cantar ao redor da fonte, transformada em Parque Ecológico e Cultural Fonte do Cacimbão. A festa foi justa. A recuperação da fonte e a criação do pequeno parque são um exemplo extraordinário de como uma comunidade unida pode resgatar sua força e sua dignidade. A revolução foi rápida, como deveriam ser todas as revoluções.

 

 

No início deste ano, com todas as restrições impostas pela pandemia, o pescador e ambientalista Rivelino Martins, 50 anos, nascido e criado em Arembepe, passou pela fonte e descobriu que o terreno onde ela está havia sido invadido por grileiros com a intenção de fazer um condomínio clandestino.A fonte que deu de beber a tanta gente tinha sido “deixada de lado” pela população a partir dos anos 1990, quando a água encanada chegara às casas do vilarejo. "Bebi a vida toda a água do Cacimbão, não tive sede por causa dela. Minha mãe, dona Bernardina, e minhas madrinhas usavam a água para lavar roupa e ganhar dinheiro, eram as "ganhadeiras" de Arembepe. Como é que eu podia ver aquilo e não fazer nada?", conta, emocionado, Rivelino.

"Chamei os amigos, os moradores do bairro e nasceu o grupo dos Guardiões do Cacimbão. Somos umas 25 pessoas, mas valemos por muitas mais." Com rapidez, agilidade, apoio da prefeitura de Camaçari e da polícia militar de Arembepe, o grupo conseguiu expulsar os invasores. A providência seguinte foi cercar e demarcar o terreno, que em nada se parecia com um sítio histórico e ecológico. Estava com cara de terreno baldio, sujo, devastado e triste. Graças aos guardiões, isso é passado.

 

 

 

A revolução foi possível porque Rivelino e seus guardiões estão na luta há muito tempo. Ele é um dos ativistas mais engajados da Associação do Coqueiro Solidário. Foi, inclusive, graças aos coqueiros que descobriu a militância ambientalista. "Minha família sempre morou na praça dos Coqueiros de Arembepe e há alguns anos os coqueiros antiquíssimos começaram a morrer e a cair. Decidi fazer alguma coisa e comecei por minha conta a replantar novos coqueiros na praça. Da praça fomos para a praia. Só no ano passado, logo que começou a pandemia, aproveitamos que estava tudo vazio e replantamos mais de mil coqueiros entre a aldeia hippie de Arembepe e o emissário, reflorestando uma área de duna que estava sendo destruída pelos jipeiros 4x4", conta.

Na fonte do Cacimbão, a ação foi semelhante. Os guardiões não perderam tempo. Terreno cercado, o grupo tratou de reconstruir o espaço. Em 20 de fevereiro, se reuniram para começar a limpar a fonte. Tiraram barro, sujeira, lixo. No dia seguinte, de novo. Mais faxina dentro e fora do poço. Com um trabalho de mutirão, bomba e força, no dia 22 de fevereiro jorrava água cristalina e todos os que trabalharam duro festejaram com um emocionante banho comunitário.

A união, a força e a alegria da comunidade foram recompensadas no dia seguinte com a indicação do vereador local, Deni de Isqueiro, para o tombamento do local como patrimônio público e histórico. Nascia, com aprovação de todos os vereadores de Camaçari, o projeto do Parque Ecológico do Cacimbão.

O movimento foi crescendo feito uma linda e poderosa onda no mar. Nos perfis de Rivelino nas redes sociais lê-se as mensagens dos amigos avisando que vão tomar banho no Cacimbão. Depois, aparecem os registros das pessoas se banhando e festejando a volta da fonte que sempre fez parte da vida da praia de Arembepe.

“O resgate da fonte do Cacimbão resgatou também a nossa dignidade com morador, nativo e ativista. Acordamos. Hoje temos um sentimento de pertencimento. Descobrimos que juntos fomos fortes mesmo. E que precisamos fazer de tudo para preservar a nossa vila, que é a nossa casa”, diz Rivelino, considerado no grupo o mestre griô [indivíduo reconhecido pela comunidade como representante dos saberes da cultura tradicional].

 

 

Bastou começar. Sem muita resenha, os moradores foram chegando para ver, lembrar, contar histórias, tomar banho, limpar, carpir e plantar. Os comerciantes locais, nativos ou não, também se engajaram. Em março, Domingos Martins, o popular Picudo, doou as duas primeiras caçambas de areia branca para demarcar o espaço da fonte e o início da trilha do parque. Com a área toda limpa, os guardiões celebraram com um feijão reforçado mais uma conquista. Depois da areia, chegou o cimento para refazer a fonte, a madeira, doada pelo empresário arembepeiro Valter Santiago Figueiredo, o Nego, para construir um quiosque sobre o local e fazer bancos ao redor.

Graças a limpeza do poço, a água foi ficando transparente, límpida e até parece estar brotando com maior intensidade. Os apoios também cresceram com a força d’água. Os guardiões têm a benção e proteção do comandante da polícia militar local, Major Presa, do padre Christian, da quase paróquia de São Francisco, da mestre de Cultura, dona Beth, da dona Clarice, a enfermeira mais antiga da cidade, do Ró, o mestre da Chegança, de dona Ilce, a rezadeira mais antiga de Arempepe, da música e voz do cantor e compositor Pincel. Enfim, uma fila de pessoas que fazem parte da história e da vida desse vilarejo.

Todos beberam da fonte. Todos têm memórias lindas e emocionadas do tempo em que faziam fila para matar a sede.

A festa de 14 de agosto foi prestigiada. Contou com vereadores, políticos, formadores de opinião, ambientalistas e nativos. Nas rodas, a conversa era alegre e afirmativa. Exaltava-se a força deste movimento e discutia-se sobre como replicar em outros lugares a iniciativa dos guardiões. “Vamos criar os Guardiões de Abrantes, guardiões das dunas, guardiões da aldeia”, ouvia-se, repetidas vezes. A comunidade estava fascinada com a descoberta da força que brotou junto com a água. Eles podem mudar Arembepe. Eles podem mudar o mundo. Como dizia o padre jesuíta Antonio Vieira, que provavelmente também matou a sede com Cacimbão em suas andanças pela Bahia no século XVII, “para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras.”

Todos nós, guardiões do Brasil, mãos à obra para salvar nossa terra que não tem planetaB.